Sevilha revela-se como um palimpsesto aberto, onde cada traço urbano parece ter sido escrito, raspado e reescrito ao longo dos séculos. A antiga Isbiliya islâmica permanece como um esqueleto subtil sob a cidade luminosa de hoje, legível na densidade das ruas, nos pátios ocultos e na relação íntima entre sombra, água e arquitetura.
A muralha almóada do séc. XII, erguida para proteger uma cidade próspera junto ao Guadalquivir, delimitava um recinto vivo e permeável, pontuado por portas como a de Jerez, a de Carmona ou a de la Macarena. Desses limites defensivos restam troços dispersos, torres sobreviventes e a memória inscrita na forma curva de certos arruamentos, onde a cidade ainda parece dobrar-se sobre si mesma.
No interior desse traçado, a Alcáçova — hoje o Real Alcázar — afirma-se como coração contínuo, lugar onde o tempo não se organiza em camadas sucessivas, mas em convivência. Pátios, jardins e salas articulam-se numa gramática de água, azulejo e luz filtrada, onde o desenho encontra sempre um ponto de repouso.
Desenhar Sevilha é seguir esses vestígios: a muralha que se transforma em fachada, o arco que já não é porta, o pátio entrevisto por uma cancela entreaberta. É aceitar que a cidade não se oferece por inteiro, mas em fragmentos — e que é nesses fragmentos, entre o visível e o oculto, que Sevilha continua a acontecer.